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14/12/2009

Arquivo de Fevereiro, 2009

A cidade da divina folia

Quando cheguei, a meio de um dia quente com o céu azul típico da época seca do Planalto Central, já se instalava o clima de euforia que faz de Pirenópolis uma das cidades mais festivas do Brasil. Cavaleiros percorriam, altivos, as calçadas do centro histórico, produzindo o som inconfundível dos cascos das suas montadas contra a pedra dominante. Nas esplanadas da Rua do Lazer, visi­tantes de Goiânia e redondezas apagavam da memória a semana de trabalho, recompensando-se com muita cerveja gelada, música e boa disposição. Enquanto isso, o rio das Almas estava repleto de jovens banhistas que nadavam e aproveitavam as enormes rochas para mergulhar para o Poção da Ponte. NaPIRENÓPOLIS 5 margem esquerda, o campo de areia das peladas acolhia uma partida de futebol disputada com entusiasmo. Na margem oposta, mais cavaleiros levavam a cabo o complexo ensaio diário para as complicadas coreo­grafias das Cavalhadas, uma cerimónia de reconstituição das Cruzadas a realizar alguns dias depois, como parte da famosa Festa do Divino Espírito Santo. Pirenópolis, a cidade colonial anfitriã, situa-se a 165km a oeste de Brasília e a 128km a norte de Goiânia, em pleno estado de Goiás, no Centro-Oeste bra­sileiro. Foi fundada, em 1727, sob o nome de Minas de Nossa Senhora do Rosário da Meia Ponte, por Bartolomeu Bueno da Silva Filho, descendente de uma das personagens históricas mais famosas da região, o Anhanguera PIRENÓPOLIS  6 (velho diabo), bandeirante pau­lista que conquistou, dos índios Goyaz, a alcunha, o ouro e o temor, à custa de muita astúcia e ainda mais crueldade.

 

 

 

 

 

 

 

 

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A origem vulcânica e as temperaturas agradáveis ao longo de todo o ano permitem à ilha da Madeira ser palco privilegiado de práticas desportivas. A aventura está garantida.

Surf – As potencialidades da Madeira para o surf só foram reconhecidas há cerca de qua­tro anos, mas desde aí a região recebe sur­fistas de diferentes pontos do mundo. As for­mações rochosas requerem precaução, mas as boas ondas e a temperatura da água com­pensam (15°C na época fria, 21°C na época quente). Os melhores spots são na Praia das Bruxas, Jardim do Mar, Fajã da Areia e Ponta Pequena.

surf thumb Madeira   desportos

Mergulho – As águas cristalinas da ilha per­mitem praticar mergulho com boas condições Há grande probabilidade de ver espécies como golfinhos, raias e mantas. A passividades dos peixes face à presença dos mergu­lhadores é um dos trunfos da Madeira. Os me­lhores lugares para fazer mergulho são em Garajau, Reis Magos, no Clube Naval do Fun­chal e n’O Madeirense, em Porto Santo.

mergulho thumb Madeira   desportos

Pesca – Continuando com o mar da Madeira como pano de fundo, há a possibilidade de fazer pesca desportiva. As águas da ilha são ricas em atum, peixe-espada, barracudas ou espadarte. A profundidade atinge os 1000 metros muito perto da costa, havendo zonas de pesca a cinco minutos do cais. Na marina do Funchal encontram-se barcos com o melhor equipamento para a pesca desportiva.

pesca thumb Madeira   desportos

Canyoning – O canyoning oferece emoções fortes. Os percursos vertiginosos das desci­das das ribeiras, com desníveis até 60 metros, mostram o que a ilha tem de mais puro. Du­rante o Verão, as ribeiras da vertente Norte são as mais frequentadas, pois o seu caudal é mais elevado. No Inverno, o lado Sul da ilha é mais aconselhável, pois os desníveis são mais suaves e as correntes mais calmas.

Canyoning

Montanha - A acidentada orografia da Ma­deira permite que escalada, rappel e slide se­jam actividades muitos atractivas – e permi­tem o contacto directo com a Natureza. As zonas preferidas para a prática destes três des­portos são a cordilheira central, as falésias ma­rinhas e algumas paredes rochosas da costa Norte da ilha.

montanha thumb Madeira   desportos

Parapente – É outro dos desportos que ofe­rece boas condições aos praticantes. As des­colagens variam entre falésias de 30 a 1600 metros. As aterragens são quase sempre fei­tas nas praias. Os locais mais utilizados são o Cabo Girão, Pico das Mantas, Arco da Calhe­ta ou-Porto Cruz.

parapente thumb Madeira   desportos

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Do deserto à floresta subtropical, do mar à alta montanha

Iniciemos a nossa caminhada pela costa oriental da ilha. Quem vai até à ponta de São Lourenço encontra uma paisagem desértica, onde o contraste com o oceano cria uma imagem surreal. Os trilhos estão bons e acessíveis a todos e a baía D’Abra convida a um mergulho.

Se a paisagem desértica não for a sua preferida, podemos facilmente estar embrenhados pelo verde a duas horas de marcha. Siga para a costa Norte. Vá até à Boca do Risco e percorra a levada do Larano até perto de Porto da Cruz. Vai ver uma Ma­deira verde e rural.

Inflictamos agora para a cordi­lheira central. Vamos percorrer o trilho entre o Pico domadeiracaminhadas thumb Madeira   Caminhadas Areeiro e a Encumeada, passando pelo pico Rui­vo – o ponto mais alto da ilha -, o pico do Ferreiro e o pico do Jorge. Es­tamos, por assim dizer, na «alta montanha» da ilha. Com bom tem­po, a paisagem deste trilho, criada pelos vulcões e esculpida pela água e pelo vento, é deslumbrante. Abai­xo da nossa linha de visão estende-se o verde da floresta primitiva de loureiros e tils, nos quais nos em­brenharemos quando descermos para a Encumeada. Ao fim do des­te dia teremos percorrido um dos mais belos trajectos que a Madeira nos oferece.

madeiracaminhadas2 thumb Madeira   Caminhadas Se ainda não está convencido, hoje seguramente ficará. Começa­mos a andar no Lombo do Mouro, de onde seguiremos para o Pináculo e a Bica da Cana. Depois seguiremos pela levada do Lageado, lagoa do Vento, Rabaçal, 25 Fontes, Rocha Vermelha, túnel do Rabaçal e por fim chegaremos à Calheta. É o dia todo a andar e toda a noite a so­nhar com esta paisagem de um ver­de embriagante.

Já estamos próximos da ponta ocidental da ilha. Comecemos ago­ra a caminhar na Fonte do Bispo. Descemos até à levada do Galhano. que percorreremos com estupefac -ção. A beleza deste percurso é mui -to especial. Se as suas pernas ajuda rem, pode chegar a tempo de dar um mergulho nas piscinas naturais de Porto Moniz e depois apanhar uma boleia até à ponta do Pargo, para ver o pôr-do-sol.madeira caminhadas 3

Terão passado apenas cinco dias desde que saiu do continente. Se tiver mais alguns dias  disponíveis, vá até ao Caldeirão Verde e à Fajã da Nogueira.

E agora um segredo. Espere por um dia de nevoeiro e rume ao Fanal. Se encontrar um gnomo ou duen­de, não se admire. Disfarce e con­tinue a caminhar alegremente nou­tra dimensão.

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Para quem não concebe as férias sem os ferros e as madeiras na bagagem, o arquipélago oferece três campos de golfe de características únicas. Espectaculares, constituem também belos desafios desportivos

O Ir à Madeira jogar golfe é hoje uma opção válida para os aficionados da modalidade. Desde logo porque possui o mais espectacular campo de Portugal, o do CG Santo da Serra, ou não estivesse situado 700 metros aci­ma do nível do mar, com vistas de cortar a respiração sobre as monta­nhas, a cidade do Machico (a cujo concelho pertence) e o oceano, onde se destacam a ponta de São Louren­ço e as Desertas.

Estamos no berço

do golfe ma­deirense, que, tal como no conti­nente, foi trazido para o madeira golfe arquipéla­go por ingleses. Já em 1933, era praticado nos vizinhos terrenos ane­xos ao Hotel-Pousada da Serra. Mais tarde, em 1937, os irmãos Miles, com a ajuda dos Leackck e dos Blandy, inauguraram o primeiro percurso de nove buracos, o Favellas Santo da Serra GC.

Setenta anos depois, encontra­mos um complexo de golfe de 27 buracos, ou seja, com três circuitos de 9 buracos, concebidos de maneira a estarem ligados entre si, e a permi­tir três versões de 18 buracos. Mas o cenário mantém-se intacto – à ex­cepção da club-house, nenhuns ves­tígios de construção imobiliária, apenas a Natureza no seu esplendor, um regalo para a vista.

Os percursos Machico e Desertas constituem os 18 buracos de cam­peonato – é lá que se joga todos os anos o Open Madeira, pontuável para o European Tour. São montanhosos, estratégicos, têm greens rápidos, de difícil leitura, e são extremamente exigentes do ponto de vista físico, pelo terreno desnivelado. Golfe um desporto para velhos? Quem per­correr estes 6136 metros, a subir e a descer, sem buggie, dirá que não.

madeira golfe 2 Mas a Madeira tem mais dois cam­pos, igualmente belos. O do Palhei­ro Golfe, inaugurado em 1993, si­tua-se mesmo a uma altitude supe­rior, proporcionando uma panorâ­mica deslumbrante sobre a baía do Funchal e mar. Fica perto da Quin­ta do Palheiro, mansão rodeada de flores raras e árvores exóticas.

No Porto Santo, aberto ao público em 2005, a aposta no espanhol Severiano Ballesteros para desenhar o seu primeiro campo de golfe foi bem sucedida. O carismático ex-jogador concebeu um circuito tão pouco convencional como o seu es­tilo de jogo, com seis par-5, e seis par-3. A primeira metade do per­curso é flanqueada por colinas ro­chosas, com vista para o casario e para a praia; a segunda metade tem uma série de buracos junto às falésias, a causar vertigens.

Enfim, três campos unidos pela beleza, mas que representam desa­fios diferentes.

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Calor, sol, café, rum e muita música. São clichés mas são verdadeiros, nesta costa de bilhete-postal recheada de bananeiras e mar azul-turquesa

Sente-se atraído pela ideia de sol dos trópicos, casinhas coloridas, mar esmeralda, bananeiras e coqueiros, plantações de café a perder de vista, maris­co grelhado junto ao mar, resorts de traça co­lonial, chá das cinco em serviço de prata, mordomos de luvas brancas, cascatas, rios com crocodilos, recifes de coral, areais tipo Branca de Neve, rum com gelo em noites quentes e entardeceres de sonho? Então aqui vai um conselho: coloque os calções, o fato de banho e os chinelos numa mala, corra pa­ra o aeroporto eJamaica 5 embarque rumo à Jamaica. Sem ‘talvez’, nem ‘pois’, nem ‘mas’, nem ‘va­mos lá ver’. À chegada, peça para o deixa­rem na costa norte ou noroeste da ilha, on­de está localizada a maior parte dos bons re­sorts e dos sítios must see it. Escolha um bom resort para passar as noites, mas não deixe de alugar um carro para partir à descober­ta da realidade. Está na Jamaica, aproveite. Não queira só cocktails à beira da piscina. Há mais para descobrir e para viver.

Já lutaram muito no passado e agora ape­nas se preocupam em curtir a vida.Ya Mon, como eu vos entendo. Quando for grande quero ser jamaicana. De pé descalço enter­rado na areia, lagosta apanhada à mão, sor­riso sempre aberto, ca­sinha ama­relo berrante virada para o mar – alugar um T1 de madei­ra custa cerca de 70 euros por mês. Não há dinheiro? “No problem, para que é preciso o dinheiro se a natureza não nos deixa passar fome? Há Jamaica 2 peixe no mar, há fruta nas árvores e uns centavos para um copo de rum”, diz-me Errol, rastafari de corpo e fé, sentado à beira do Black River, uma das atracções na­cionais a não perder.Vem aí um tufão? “Agar-ra-te à árvore mais próxima e espera que pas­se, amanhã será um novo dia”.

É assim a Jamaica e o seu povo, uma mis­tura quase, quase perfeita entre a descon­tracção e o requinte, entre os bairros de ca­sinhas de madeira multicolores e as grandes fazendas dos antigos senhores britânicos e dos feudos coloniais. Tudo isto, sempre, com a selva tropical em redor e o mar ao fundo.

Na década de 1940, houve três aconteci­mentos que se tornaram basilares no novo rumo que a ilha tomou desde então: a che­gada de Ian Fleming, criador de James Bond, do dramaturgo inglês Noel Coward, e do ac­tor Errol Flynn, o senhor Robin dos Bosques. Foi com estes três jamaicanos de coração

que começou o turis­mo na Jamaica. Pé ante pé, primeiro, e com força e garra, depois. Hoje em dia contam-se nos três milhões os forasteiros que ater­ram por ano nesta ilha das Caraíbas. A maio­ria é americana, mas já há muitos europeus também.jamaica3 thumb Na ilha dos sorrisos

A verdade é que a água por lá é mesmo muito quente e a melhor maneira de refrescar é não dar apenas um mergulho, mas dois, três, quatro, cinco, os que quiser. Para além das melhores praias (que pertencem aos ho­téis), a maioria da costa é falésia, de rocha até ao mar, o que torna difícil o acesso.

Mas contamos-lhe um segredo: se algum dia estiver muito desesperado com calor ah para os lados de Oracabessa, para lá de Ocho Rios, procure uma casa de madeira amare­la, chame pelo Bonés, um rasta de 60 anos, viajante do mundo e pintor de profissão. Diga que vai da nossa parte e peça-lhe para ver a praia privativa, 20 degraus a des­cer para o mar, entre corais multicolores, pa­ra lá de uma selva cerrada.

Não se espante se Bonés e Kendra, filha da ex-namorada nova iorquina e habitual hóspede da casa, se juntarem a si para umas braçadas. Não faça uma careta se depois, já estendidos ao sol, puxarem de vim cachimbo de água e começarem a fumar ganja. Na Ja­maica, apesar de o consumo de marijuana ser proibido, quase 60% da população faz ouvidos moucos. “É a maneira de abrir a mente, de meditar, de purificar”, explica-nos Jamaica Bonés do alto da sua experiência. “Já vivi em Nova Iorque, em São Francisco, em Bar­celona, em Paris, em Londres. Tive muitas mulheres, era muito charmoso, ainda hoje tenho mais ou menos dez filhos, vivi os anos loucos do flowerpower, estive no Maio de 68, fui amigo do Bob Marley” – tal como nos ga­rantem todos os rastas na Jamaica – “e ago­ra cansei-me de andar de um lado para o ou­ra a minha terra, para a minha praia privativa, para a minha pintura.”

Quanto à ganja, diz-nos ser “um auxílio na viagem espiritual rumo a Jah”. Uma cren­ça, assim como é também o facto de não cor­tar o cabelo desde 1982. “Os verdadeiros ras­tas não cortam o cabelo, nunca, vem na Bí­blia.” E também não podem comer carne e não devem beber álcool. E não precisam. En­tre o perfume da ganja e o aroma das bugan­vílias junto ao mar, não é preciso mais para se sentir vontade de ficar para sempre de pés na areia. Ou seguir costa fora, pela es­trada que serpenteia à beira da falésia.

Uma dica, porém: tenha atenção na con­dução. Os jamaicanos são loucos ao volan­te. SigaJamaica 6 até ao mercado de Ocho Rios para comprar bugigangas de madeira, cachim­bos, colares de sementes, missangas e bú­zios. Traga também um saco de café Blue Mountains – os entendidos dizem que é um dos melhores do mundo. Meta conversa com os locais, regateie, compre uns CD de reggae, vá até Montego Bay e beba uma margarita no Margaritaville, conhecido por ter os me­lhores cocktails de tequila de toda a ilha. Passe uma noite pela lagoa fluorescente.

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A mais antiga das histórias, a da Terra, num percurso pedestre na Península de Lisboa. Uma forma diferente de praticar desporto e conhecer, pé-ante-pé, os encantos da natureza…

A Península de Lisboa possui diversos locais de incontestável beleza natural. No entanto devido à grande pressão urbanística e industrial a que se encon­tra sujeita, verifica-se uma degradação acentuada de extensas áreas. A impres- ‘ são de degradação que essas áreas transmitem faz com que, regra geral, não sejam visitadas pelos amantes das actividades de ar livre. Tradicionalmente, a apetência pelas Áreas Protegidas relega para segundo plano esses locais onde um olhar mais observador poderá descobrir todo um universo de fenómenos naturais… Para além da recente auto-estrada e dos mais recentes ae-rogeradores,Motachique esta região ainda encerra insuspeitos encantos.

DOS ARENITOS AOS CALCÁRIOS

A aldeia de Montachique, situada a poucos qutómetros a norte de Lisboa, consobi um porto de partida ideal para se empreender um percurso de caracte­rísticas peculiares. Segundo em direcção ao Cabeço de Montachique (298 m), co­mo se fosse para Rfcas de Orna, poderá descortinar, para além do ruraismo que ainda desponta por entre a vegetação, as rochas arenosas que aí afloram. Atingindo o pequeno povoado que se situa nas faldas do Cabeço de Montachique, abandonamos a estrada alcatroada, virando à direita por uma estrada de terra-batida onde se poderá observar com mais detalhe essas rochas. Os arenitos que ai se encontram são constituídos essencialmente por grãos de quartzo, grosseiros a finos, mal calibrados, subangulosos a subrolados, ligados por um cimento carbonatado. A componente argilosa é igualmente signi­ficativa podendo surgir óxidos de ferro e inclusões de carvão. 0 conjunto surge em tons esbranquiça­dos, amarelados, cinzentos e/ou aver­melhados com laivos arroxeados. Estas “Camadas de Almargem”, definidas por Paul Choffat (em 1885) na localidade de Motachique 2 Almargem do Bispo, transportam-nos aos remotos tempos do Barremiano superior-Aptiano, há cerca de 109 a 124 milhões de anos (Ma) atrás, quando se sedimen­taram em ambiente estuarino a litoral. No cimo dessa estrada, junto do cru­zamento que liga a uma plataforma talhada por “mão humana”, podem vislumbrar-se diversos abarrancamentos que cortam os arenitos manifestando a acção das águas de escorrência. O olhar atento irá descortinar inúmeras e peque­nas chaminés de fada que modelam es­ses abarrancamentos ou ravinamentos. Retome-se a marcha em direcção a Ca­sal do Andrade. No lado esquerdo da es­trada alcatroada, os arenitos irão passar a “Calcários e Margas”. Esta mudança das rochas aflorantes poderá também depreender-se pela súbita alteração do coberto vegetal.

CVL E CALCÁRIOS CRISTALINOS

De Casal de Andrade até ao vértice geo­désico Montachique (409 m), o percurso desenvolve-se sobre os “Calcários e Margas”. Estas rochas sedimentares pas­sam, já nesse relevo, a rochas eruptivas do Complexo Vulcânico de Lisboa (CVL). O CVL é constituído porMotachique 3 uma sucessão de derrames lávicos, intercalados com níveis piroclásticos pouco representa­tivos e por algumas camadas vulcano-sedimentares.

As determinações geocronológicas, pelos métodos Potássio/árgon e Rubídio/Estrõncio, têm atribuído ao CVL, invariavelmente, uma idade à volta dos 70 Ma. As rochas são essencialmente de natureza basáltica, encontrando-se ge­ralmente muito alteradas com cor “tierra siena”. Surgem, no entanto, basaltos “frescos” de cor negra, cinzenta-escura ou verde-anegrada, por vezes com feno-cristais de olrvina, como no caso do vér­tice geodésico Montachique. O percurso segue em direcção dos Cabeços da Torre (378 m) a fim de, aí, se observar outro exemplo, bem expressivo, de disjunção colunar ou prismática associada a chaminé vulcânica. Também se encontra disjunção esferoidal na zona noroeste dos Cabeços da Torre. Atingindo o topo dos Cabeços da Torre (378 m) desce-se até à Torre da Besueira e, daí, Motachique 4 passando junto do Alto do Mato do Antão (244 m) até Salemas. Durante o trajecto poder-se-á visualizar as uni­dades já nossas conhecidas: “Calcárias e Margas” e “Complexo Vulcânico de Lisboa”. Ultrapassando a povoação de Salemas teremos oportunidade de conhecer outra unidade com caracterís­ticas bastante evidentes: os “Calcários com wrudistas”.

Os “Calcários com rudistas”, até há pouco tempo considerados formações do Turoniano médio foram incluídas no Cenomaniano superior (92 a 95 Ma) em consequência da descoberta de fósseis de Paealveolina cretácea tenuis Reichel. Surgem aflorando em campos de lapiás (por exemplo a su-sudeste da Torre da Besueira ou sudeste de Salemas) e possuem formas típicas em que pre­dominam as escudelas de dissolução (kamenitzas).

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O percurso irá conduzir-nos até à entrado da Gruta das Salemas. Esta abre-se numa bancada de calcários apinhoados do Cenomaniano superior formando cornija no iam esquerdo do Vale da Ribeira de Lousa.

A Gruta das Salemas, descoberta na década de 50, é um corredor sinuoso, com cerca de 30gruta salemas metros de comprimento e um metro de largura média, que termina numa exígua sob. 0 chão rochoso apresenta, junto da entrada da cavidade, diversas marmitas e fracturas que se encontravam preenchidas por terra rossa (com pedras calcárias e basálticas), indústrias pré-históricas (do Paleolítico superior) e ossos de fauna quaternária: ursos (Ursus arctos e Ursus spelaeus), felinos (Felis pardus e Felis pardina), Hiena (Hyaena croata spelaea), Lobo (Covis lúpus). Cavalo (Equus caballus), etc. A pobreza de utensí­lios encontrados indicará que a Gruta das Salemas nunca deve ter servido de habitação permanente: inicialmente (no Paleolitíco) constituiria um obrigo temporário e, mais tarde (no Neolítico), uma necrópole.

Junto da Gruta das Salemas, num algar posto a descoberto pela laboração da pedreira que aí foi instalada, surgiu uma bolsada contendo industria mustierense, restos humanos possivelmente do paleolítico médio e fauna idêntica à da Gruta dos Suemos, acrescida de ossos de elefante (Elephas sp.). Os ossos de rieanoertaler6es(possivelmente do Paleolítico médio), descobertos no povoado de Salemas, são uma raridade. O CVL assenta em discordância, sobre o curso talhado nos “Calcários com rudistas”. Este contado pode-se depreender se se caminhar em direcção do Alto da Toupeira, no entanto, iremos tomar um rumo diferente Regressando peto caminho que nos conduziu à Gruta das Salemas, junto ao cruzamento, vira-se para oeste até à Ponte da Levada. Durante a descida dessa estrada alcatroada poder-se-á observar os “Calcários e Margas” que aí afloram coroados pelos “Calcários com rudistas”. Junto da estrada que liga Lousa a Ponte de Lousa, no cru­zamento da Ponte da Levada, encontra-se o contacto entre os “Calcários e Margas” e os “Grés de Almargem”. Aí, podem observar-se laminações entrecruzadas e uma inclusão de carvão no se/b dos arenitos. Chegado a este ponto do percurso, o cami­nhante poderá subir a Encosta da Saúde, passar por Carcavelos, Alto do Penedo Mouro e Ponteias até Ponte de Lousa, revendo as diversas unidades geológicas já conhecidas. No entanto, caso o cansaço o aconselhe, deve regressar a Montachique pela estrada que conduz a Lousa ou, melhor ainda, descer até Ponte de Lousa. Apesar de caminhar junto a uma estrada bastante transitada, a observação geológi­ca da área continuará a ser possível: verás que é um exercício estimulante! Não só físico, mas também mental…

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