Da Graça aos Prazeres, descobrindo a cidade a bordo do histórico eléctrico 28, numa
forma diferente de passar o Dia dos Namorados
É verdade que quando se pode sabe bem ficar um pouquinho mais na cama. Há até quem tenha a surpresa de lá lhe levarem o pequeno-almoço. Mas a bordo do 28 o dia começa bem cedo, e não se admire se por volta das 8.30 os lugares deste velhinho eléctrico já estiverem todos ocupados, principalmente por estrangeiros.
Claro que não será necessário subir a bordo tão cedo, mas acredite que vale mesmo a pena sentir o acordar de Lisboa com o Tejo a seus pés, feito de cores e cheiros, daquela luz tão única, espreitando bairros históricos e zonas nobres, aqui e ali ouvindo a voz de Amália, que, por ser Dia dos Namorados, parece cantar Lá vai Lisboa com a saia cor de mar/cada bairro é um noivo que com ela vai casar…
Sugerimos que apanhe o 28 na Graça e que, antes de subir, se delicie com a vista privilegiada a partir da esplanada com o mesmo nome. Entramos então nesta verdadeira caixinha de recordações, que arranca com um solavanco rumo à Rua Voz do Operário, dando a descobrir antigos palácios e duas igrejas, a de Sta Engrácia e a de S. Vicente de Fora, antes de piscar o olho à famosa Feira da Ladra, local onde, às terças e sábados, poderá comprar tudo. Ou quase.
Deixando para trás o alarido, seguimos ao som da campainha do eléctrico, cuja toada intemporal ecoa pelas ruas estreitas de Alfama, tão estreitas que parece que o próprio eléctrico não vai passar. Mas nada impede o 28 de prosseguir o seu caminho, desta feita rumo às Portas do Sol, deixando à vista as cores do Tejo que podem ser apreciadas de uma esplanada. O Castelo de São Jorge fica mesmo ali ao lado e uma dezena de metros mais abaixo ergue-se a monumental Sé Catedral, com um estilo românico único em Lisboa. Mandada edificar por D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, no século XII, distingue-se pelo seu interior em cruz latina, com três naves.
A descida pára quando chegamos à Baixa Pombalina, onde o Arco da Rua Augusta nos deixa ver a Praça do Comércio e nos convida a um passeio a pé, seja para fazer compras, seja para nos deixarmos engolir pela Praça de D. Pedro LV, mais conhecida por Rossio. Com
novo solavanco, o 28 começa a subir, rumo ao renovado e incontornável Chiado, onde Camões, no largo com o seu nome, e Fernando Pessoa, à porta da Brasileira, esperam por nós. Também é por ali que podemos visitar a Ópera de S. Carlos e a Igreja de Nossa Srª da Encarnação ou apostar num passeio pelas ruas do Bairro Alto, a meca da noite da capital, durante o dia transformada no centro de lojas e marcas mais alternativas e irreverentes. Em tons de amarelo que os transformam em familiares do 28, e ali por perto, estão o Elevador da Glória e o Elevador da Bica, prontinhos a serem experimentados. E para uma pausa o Mirante de Santa Catarina, também conhecido por Adamastor, permite toda uma outra panorâmica do Tejo. Seguimos pela Calçada do Combro em direcção à Rua de São Bento, onde nos espera a Assembleia da República, e continuamos a subir, desta feita a Calçada da Estrela, rumo à Basílica e ao Jardim, ideal para quem quer namorar. E, já que este trajecto termina nos Prazeres, é precisamente em Campo de Ourique, capaz ainda de manter um pouco daquela Lisboa que os avós de alguns de nós nos deram a conhecer, que encontramos um bolo de chocolate que diz ser o melhor do mundo. Nós confirmamos que é delicioso. E óptimo para partilhar com a cara-metade.
Sabia que…
Os eléctricos que dão vida ao circuito do 28 são anteriores à Segunda Guerra Mundial, mas movem-se com a desenvoltura de um adolescente habituado a brincar nas ruas. A sua pintura amarela é inconfundível e os seus interiores, em madeira, parecem saídos de um filme.
No coração
E difícil explicar a facilidade com que o Chiado conquista quem por lá passa. E, mais ainda, como é que uma simples esplanada consegue reunir à sua volta as mais variadas tribos urbanas, que, numa primeira análise, dificilmente estariam dispostas a conviver. Falamos da esplanada da Brasileira, local emblemático onde, conta-se, nasceu o termo "bica" para designar o café. E também ali que, intemporalmente sentada, a estátua de Fernando Pessoa assiste a tudo o que se passa neste verdadeiro coração de Lisboa, como se recuperasse parte do seu poema onde podemos ler Ah, mas se ela adivinhasse/Se pudesse ouvir o olhar,/E se um olhar lhe bastasse/P’ra saber que a estão a amar!


