Longe dos mares do Pacífico Sul, mas perto do paraíso, a Praia do Forte é um dos últimos lugares (quase) intocados do litoral brasileiro. São 12km de praias semidesertas, cinco reservas naturais protegidas, a mata de coqueiros mais densa do Nordeste, uma vila de pescadores… e um dos melhores “resorts” do mundo
Conhecida por ser todos os anos berço de mais de 65 mil tartarugas que ^nascem nestes areais, a Costa dos Coqueiros é um dos últimos refúgios tropicais do Brasil onde ainda não chegou o turismo de massas. Por aqui não há grandes resorts de betão e palmeiras artificiais com muitos bares com néons e lojas de souvenirs. Em vez disso, ecologia, conservação do
ambiente, reservas naturais e ecoturismo são mais do que palavras… são acções. É aqui, a pouco mais de 50 quilómetros de Salvador da Bahia, que fica a Praia do Forte. Tem uma vila pequena, com casinhas baixas e lojas coloridas (que por lei não podem ultrapassar a altura dos coqueiros), uma praia onde os jet skis e as motos de água são proibidos, e um resort- o Praia do Forte Eco Resort & Thalasso Spa – onde se aprende a reciclar papel, a fazer a separação do lixo e a preservar a natureza. "Usufruir sem destruir" é o lema local. E tudo isto inserido numa paisagem de 250 mil metros quadrados, com um sol permanente e uma temperatura média de 28 graus – tanto do ar como da água do mar -, ao som dos batuques do samba e dos violões do chorinho, com sabores quentes temperados a azeite dendê e leite de coco bem gelado. E muito chopinho e muita caipirinha de frutos tropicais à mistura, com os pés descalços, enterrados na areia. No meio de dois mergulhos que o calor abafa e o Verão na Bahia é eterno. Se fosse só isto já seria maravilhoso. Mas é mais. Muito mais…
Começa logo pela sala privada do resort no aeroporto de Salvador, onde somos recebidos
com bebidas geladas e toalhinhas refrescantes, 11 horas depois de deixar Lisboa numa manhã fria de Inverno. Seguem-se 45 minutos de estrada e o primeiro impacte: o resort está perfeitamente integrado na paisagem – da praia não se consegue ver o hotel -, totalmente construído em madeira, vergas e colmo, num estilo semelhante ao que se vê na Polinésia Francesa, e aberto para o mar, com areia, coqueiros, jardins de árvores exóticas e relvados a perder de vista. Ao pequeno-almoço do dia seguinte, reparo que a maioria dos clientes são casais em clima romântico ou famílias com crianças. Muitas crianças. Mas, incompreensivelmente, só se vêem ao pequeno-almoço. Durante o dia não se ouvem choros, gritos, gargalhadas, reprimendas, birras de sono, chapinhares na água. E também se vêem poucos adultos, seja na praia, nas duas piscinas ou nos jardins. Apenas uma pessoa aqui, um casal ah, duas ou três pessoas acolá. Tudo com a máxima serenidade, num sossego absoluto,
intercalado apenas pelo barulho do mar, o resfolhar das palmeiras e o som da passarada – a Praia do Forte tem mais de 245 espécies classificadas de aves. O segredo para esta paz passa, sobretudo, pela separação das áreas de crianças e adultos. Não faltam ainda sugestões para passeios a cavalo e de moto4, caminhadas a pé por trilhos ecológicos e visitas guiadas de um dia a Salvador, com passagem pela Barra, pelo mercado, pelo Pelourinho bairro de Santo António, com as suas coloridas e os seus cafés com vista pa-Baía de Todos os Santos – com tempo calma, para quase se sentir dentro livro de Jorge Amado. Ao fundo da rua principal, a Alameda do Sol, fica a sede do projecto Tamar, uma organização sem fins lucrativos que zela pela preservação das tartarugas. Na companhia da bióloga Cláudia Zanette, coordenadora do centro ambiental do eco resort, paulista de nascimento mas baiana de coração, ficamos a saber que, nos tempos idos, os pescadores da região tinham por hábito matar as tartarugas que por aqui andavam, para alimento. E faziam o mesmo com os ovos, um verdadeiro pitéu, ao que parece.
Para lá das tartarugas, das baleias e do ecoturismo, a Praia do Forte também tem história e
cultura. Foi aqui que desembarcou, no século XVI, o almoxarife real português Garcia D’Ávila. "É a ele que se deve a introdução do coqueiro nesta costa. Foi ele que o trouxe da índia para aqui", diz Claudia. "E foi também ele que lançou as bases para aquele que viria a ser o maior latifúndio do Brasil", uma fazenda de coqueiros que ocupava cerca de dez por cento do território da então colónia. Da história restam agora os cocos e o castelo que Garcia D’Ávila mandou erguer – o único de estilo medieval no Brasil – já em ruínas, mas ainda comuma vista de sonho. Cláudia continua a desfiar história: "Nos anos 70 chegou aqui um paulista, descendente de alemães, chamado Klaus Peters, que comprou toda a terra da Praia do Forte. Sempre com a ideia de preservar a vila de pescadores e de não ‘expulsar’ a gente local. Gu seja, com a ideia de não trazer apenas betão." Uma ideia que muitos acharam utópica, na altura, mas que se mantém até hoje. Para proteger a vila e os seus pescadores, Klaus Peters – também responsável pela construção do Eco Resort – obrigou a prefeitura local a fazer um contrato
com os moradores, de forma a que estes possam apenas doá-las aos seus herdeiros. "Desta forma ele estava a tentar que não acontecesse aqui o que aconteceu em muitos sítios no litoral do Brasil: logo que um turista chegava, o nativo vendia a sua própria casa e, em poucos anos, aquilo que era uma vila característica, acabava ficando uma vila urbana."
"Continua a ser uma terra de boa gente", salienta Cláudia. Boa gente de trabalho, boa gente do mar, boa gente antiga, de pele encarquilhada e histórias para contar. Como a Dona Mariazinha, 84 anos,n&scidar e criada na Praia do Forte, "quando as ruas ainda eram todas de areia, as casas de palha e a água para beber só vinha do rio". Dona Mariazinha, que fazia "bigode de coco e trança de chapéu", hoje é conhecida por vender a sua famosa cachaça Cura Veado. "Já curei muito veado [gay], viu? Muito veado que veio aqui, bebeu minha cachaça e saiu homem a gostar de mulher", diz de sorriso matreiro acompanhado de piscadela de olho.
Hoje é também o dia em que o grupo Raízes do Forte se reúne no seu quintal, com muita cerveja, muito peixe grelhado, muito molho lambão e muita alegria. São quatro, cinco, seis, aqueles que aparecerem. Um toca com colheres de sopa, outro toca timbau, outro cavaquinho, outro violão. Há o Zéu, há o Damião, há o Motor. Há quem vai chegar e ainda não chegou. "Sempre há uma cerveja que sobra para quem vem por bem. E tudo junto dá uma mistura de chorinho, com samba, levada dechorinho e sambinha. Qualquer coisa bonita para caramba".. que até já foi descoberta por um editor de world music. "Levaram-nós para tocar na maior -sala de espectáculos de Salvador. Foi uma beleza^Foram aplaudidos de pé e agora vão editar um disco", conta Cláudia. Ulisses confirma. Ainda a leste do sucesso, contente por estar no seu quintal, na sua segunda-feira longe do mar, com os seus amigos e a sua cerveja…
Outra figura da terra é Doidão, artesão premiado, que passa os dias no seu atelier na Alameda do Sol, a fazer esculturas de cedro e jacarandá, dando vida às figuras do
Candomblé. É um atelier pequenino, com uma fama do tamanho dó mundo. "Já fiz exposições em França, em Boston, em Espanha. Vem aí gente de todo o mundo para comprar meus trabalhos, mas o que quero mesmo é puder continuar aqui, onde tudo o mundo me conhece, onde me sinto bem." Não é difícil perceber porquê. Na Praia do Forte, sentimo-nos bem. Leves. Com todo o tempo do mundo. Doidão tem razão. Ulisses também. Cláudia, que trocou "São Paulo pelo paraíso", soube o que fez. As tartarugas e as baleias escolheram um bom sítio para vir acasalar e ter filhotes.
Fonte: Global


