A cidade da divina folia
Quando cheguei, a meio de um dia quente com o céu azul típico da época seca do Planalto Central, já se instalava o clima de euforia que faz de Pirenópolis uma das cidades mais festivas do Brasil. Cavaleiros percorriam, altivos, as calçadas do centro histórico, produzindo o som inconfundível dos cascos das suas montadas contra a pedra dominante. Nas esplanadas da Rua do Lazer, visitantes de Goiânia e redondezas apagavam da memória a semana de trabalho, recompensando-se com muita cerveja gelada, música e boa disposição. Enquanto isso, o rio das Almas estava repleto de jovens banhistas que nadavam e aproveitavam as enormes rochas para mergulhar para o Poção da Ponte. Na
margem esquerda, o campo de areia das peladas acolhia uma partida de futebol disputada com entusiasmo. Na margem oposta, mais cavaleiros levavam a cabo o complexo ensaio diário para as complicadas coreografias das Cavalhadas, uma cerimónia de reconstituição das Cruzadas a realizar alguns dias depois, como parte da famosa Festa do Divino Espírito Santo. Pirenópolis, a cidade colonial anfitriã, situa-se a 165km a oeste de Brasília e a 128km a norte de Goiânia, em pleno estado de Goiás, no Centro-Oeste brasileiro. Foi fundada, em 1727, sob o nome de Minas de Nossa Senhora do Rosário da Meia Ponte, por Bartolomeu Bueno da Silva Filho, descendente de uma das personagens históricas mais famosas da região, o Anhanguera
(velho diabo), bandeirante paulista que conquistou, dos índios Goyaz, a alcunha, o ouro e o temor, à custa de muita astúcia e ainda mais crueldade.


