A mais antiga das histórias, a da Terra, num percurso pedestre na Península de Lisboa. Uma forma diferente de praticar desporto e conhecer, pé-ante-pé, os encantos da natureza…
A Península de Lisboa possui diversos locais de incontestável beleza natural. No entanto devido à grande pressão urbanística e industrial a que se encontra sujeita, verifica-se uma degradação acentuada de extensas áreas. A impressão de degradação que essas áreas transmitem faz com que, regra geral, não sejam visitadas pelos amantes das actividades de ar livre. Tradicionalmente, a apetência pelas Áreas Protegidas relega para segundo plano esses locais onde um olhar mais observador poderá descobrir todo um universo de fenómenos naturais. Para além da recente auto-estrada e dos mais recentes aerogeradores, esta região ainda encerra insuspeitos encantos.
A aldeia de Montachique, situada a poucos qutómetros a norte de Lisboa, consobi um porto de partida ideal para se empreender um percurso de características peculiares. Segundo em direcção ao Cabeço de Montachique (298 m), como se fosse para Rfcas de Orna, poderá descortinar, para além do ruraismo que ainda desponta por entre a vegetação, as rochas arenosas que aí afloram. Atingindo o pequeno povoado que se situa nas faldas do Cabeço de Montachique, abandonamos a estrada alcatroada, virando à direita por uma estrada de terra-batida onde se poderá observar com mais detalhe essas rochas. Os arenitos que ai se encontram são constituídos essencialmente por grãos de quartzo, grosseiros a finos, mal calibrados, subangulosos a subrolados, ligados por um cimento carbonatado. A componente argilosa é igualmente significativa podendo surgir óxidos de ferro e inclusões de carvão. 0 conjunto surge em tons esbranquiçados, amarelados, cinzentos e/ou avermelhados com laivos arroxeados. Estas “Camadas de Almargem”, definidas por Paul Choffat (em 1885) na localidade de Almargem do Bispo, transportam-nos aos remotos tempos do Barremiano superior-Aptiano, há cerca de 109 a 124 milhões de anos (Ma) atrás, quando se sedimentaram em ambiente estuarino a litoral. No cimo dessa estrada, junto do cruzamento que liga a uma plataforma talhada por “mão humana”, podem vislumbrar-se diversos abarrancamentos que cortam os arenitos manifestando a acção das águas de escorrência. O olhar atento irá descortinar inúmeras e pequenas chaminés de fada que modelam esses abarrancamentos ou ravinamentos. Retome-se a marcha em direcção a Casal do Andrade. No lado esquerdo da estrada alcatroada, os arenitos irão passar a “Calcários e Margas”. Esta mudança das rochas aflorantes poderá também depreender-se pela súbita alteração do coberto vegetal.
De Casal de Andrade até ao vértice geodésico Montachique (409 m), o percurso desenvolve-se sobre os “Calcários e Margas”. Estas rochas sedimentares passam, já nesse relevo, a rochas eruptivas do Complexo Vulcânico de Lisboa (CVL). O CVL é constituído por uma sucessão de derrames lávicos, intercalados com níveis piroclásticos pouco representativos e por algumas camadas vulcano-sedimentares.
As determinações geocronológicas, pelos métodos Potássio/árgon e Rubídio/Estrõncio, têm atribuído ao CVL, invariavelmente, uma idade à volta dos 70 Ma. As rochas são essencialmente de natureza basáltica, encontrando-se geralmente muito alteradas com cor “tierra siena”. Surgem, no entanto, basaltos “frescos” de cor negra, cinzenta-escura ou verde-anegrada, por vezes com feno-cristais de olrvina, como no caso do vértice geodésico Montachique. O percurso segue em direcção dos Cabeços da Torre (378 m) a fim de, aí, se observar outro exemplo, bem expressivo, de disjunção colunar ou prismática associada a chaminé vulcânica. Também se encontra disjunção esferoidal na zona noroeste dos Cabeços da Torre. Atingindo o topo dos Cabeços da Torre (378 m) desce-se até à Torre da Besueira e, daí, passando junto do Alto do Mato do Antão (244 m) até Salemas. Durante o trajecto poder-se-á visualizar as unidades já nossas conhecidas: “Calcárias e Margas” e “Complexo Vulcânico de Lisboa”. Ultrapassando a povoação de Salemas teremos oportunidade de conhecer outra unidade com características bastante evidentes: os “Calcários com wrudistas”.
Os “Calcários com rudistas”, até há pouco tempo considerados formações do Turoniano médio foram incluídas no Cenomaniano superior (92 a 95 Ma) em consequência da descoberta de fósseis de Paealveolina cretácea tenuis Reichel. Surgem aflorando em campos de lapiás (por exemplo a su-sudeste da Torre da Besueira ou sudeste de Salemas) e possuem formas típicas em que predominam as escudelas de dissolução (kamenitzas).
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