Entre conventos e guloseimas
O dia amanhece cinzento, em Alcobaça, mas nem isso retira beleza ao grandioso Mosteiro, a primeira obra inteiramente gótica erguida em Portugal, que atrai milhares de visitantes todos os anos. No seu interior, repousa o amor eterno de D. Pedro e D. Inês, o par mais romântico da nossa História, cuja presença confere ao Mosteiro e à própria cidade de Alcobaça uma aura especial, tão tranquila como as águas do rio que por aqui corre, o rio Alcoa. Este é, também, o nome de uma pastelaria que fica em frente ao Mosteiro, já várias vezes premiada pelos seus doces conventuais e de onde é impossível sair sem experimentar pelos menos duas ou três das suas especialidades.
Esquecendo completamente as preocupações com a linha, rumamos a outra das Maravilhas de Portugal, o Convento de Cristo, em Tomar, a cidade portuguesa, onde a palavra “templários” faz todo o sentido, surgindo em nomes de ruas, lojas, hotéis e. claro, associada ao Castelo Templário que, lá no alto, vigia dia e noite esta encantadora cidade. É precisamente rumo ao castelo e ao convento que subimos no comboio turístico, que parte dos Paços do Concelho.
Lá de cima, esmagados pela vista, pelos jardins e pelo verdadeiro banho de História, mergulhamos numa descida rumo a uma enorme surpresa chamada Museu dos Fósforos, situado no Convento de S. Francisco. Aqui encontramos a maior colecção fi-luminística da Europa, iniciada em 1953 pelas mãos do tomarense Aquiles de Mota Lima, doada à Câmara Municipal de Tomar no início da década de 80 e que conta com mais de 60 mil caixas de fósforos, oriundas dos mais variados países.
Deixamos o museu e regressamos à parte antiga da cidade, onde o nosso destino dá pelo nome de Estrelas de Tomar, uma pastelaria onde os doces conventuais e os doces típicos são tratados com toda a mestria e todo o carinho. E é já acomodados no jardim que acompanha o rio Nabão, sob um céu agora completamente azul. que decidimos provar aqueles que são os doces mais procurados: os Beija-me Depressa. Haverá nome melhor para partilhar em boa companhia?
DOCES TENTAÇÕES
Numa época onde as mesas estão compostas e os doces em destaque, este passeio revela-se precioso na descoberta de sabores conventuais que, com toda a certeza, farão a diferença.
Em Alcobaça, a Pastelaria Alcôa revela-se um verdadeiro paraíso para os gulosos. Vencedora de vários prémios na Mostra Internacional de Doces e Licores Conventuais que. anualmente, tem lugar nesta cidade, ostenta nas suas vitrinas perdições como o Toucinho do Céu, as Castanhas de Ovos, o Pudim de São Bernardo, os Segredos de D. Pedro, os Fradinhos e as Curnocópias, para além de um bolo-rei especial, recheado com gila e doce de ovos. Em Tomar, o pecado da gula ganha forma na pastelaria Estrelas de Tomar onde, diariamente, dezenas de pessoas procuram as Queijadas de Tomar, que se afirmam como a mais antiga especialidade local, e os incontornáveis Beija-me Depressa que, maioria das vezes, estão todos vendidos ao final da manhã.



Interior acaba por estar facilmente acessível a quem, vindo de Norte ou do Sul, a ela se dirige. Ao todo são 23 núcleos de elevado valor patrimonial, ambiental e social, criteriosamente recuperados e preservados, onde a cultura, a gastronomia, os produtos locais e o património construído se impõem e distinguem pela riqueza do ser e a força do seu carácter. Ali, no extremo sul da Serra da Lousã, onde o xisto e o quartzo se mesclam na mais bela das uniões, a aldeia expõe-se numa ruralidade ímpar de comunitarismo feita. A viagem decorreu de forma tranquila e o caloroso acolhimento à chegada prenuncia uma jornada inesquecível. A tarde vai caindo mansamente e não há tempo a perder. Partimos na direcção dos Penedos de Góis, bem lá no alto da Serra, roupa e calçado confortáveis e apenas uns binóculos como acessório imprescindível. Aquilo que está prometido é um espectáculo único, irrepetível.
vales. Apesar do seu número apreciável, são animais esquivos que pouco mais deixam que os trilhos a assinalar a sua passagem e os troncos descarnados de algumas árvores, onde os mais jovens se procuram livrar do tegumento que lhes recobre as hastes. Todavia, quanto a brama nem um som! Formas e sombras vão-se confundindo à medida que o sol cai no horizonte. Naquela hora mágica, onde tudo o que é realmente importante acontece, o regresso faz-se em silêncio, a frustração da gorada demanda a falar mais alto que tudo o quanto de belo se viu e sentiu. Ao longo da serra, as imponentes pás eólicas de torres mil permanecem inertes face à ausência de vento. Aldeias e vilas vão-se acendendo aqui e além em pequenos pontinhos luminosos. Eis quando… um… dois… três… quatro! São quatro os veados que, uma centena de metros à nossa frente, atravessam o estradão para logo se embrenharem de novo no mato. É tudo tão rápido que mal temos tempo para fixar na retina os seus acrobáticos saltos. E quando os pensávamos já perdidos, eis que surgem na crista do monte, silhuetas imóveis recortadas sobre o fundo violáceo dum poente que se despede. A harmonia daquele quadro arrasta-nos para outra dimensão, uma dimensão mais humana que nos reconcilia connosco próprios. Aos poucos, o casal com as suas duas crias afasta-se. Impondo-se no firmamento, o pequeno pontinho fulgurante de Júpiter precede um céu que, de tão estrelado, quase se alcança com a ponta dos nossos dedos.
juntamente com os da Lousã e de Gondramaz, constitui verdadeira estação de serviço para os praticantes desta tão exigente quão espectacular modalidade. No edifício de linhas modernas, o praticante encontra a mini-oficina e a bomba de ar automática, a par da máquina de lavar a bicicleta e balneários com água quente para um final de jornada em beleza. Os Centros são igualmente ponto de partida para uma enorme quantidade de percursos com diferentes níveis de dificuldade, ao encontro de gostos mais moderados ou mais radicais. Optámos pelo “Ferraria Loop”, 3.8 km para cerca de uma hora de puro prazer num passeio descontraído que nos proporciona uma panorâmica geral sobre a bonita aldeia. Os trilhos que levam ao Cercal, ao Favacal ou a Campelo apresentam já distâncias consideráveis, mas valem bem a pena pelas zonas de inegável beleza que atravessam, visitando o vale da Ribeira das Ferrarias, as Fragas da Lagoa ou o S. João do Deserto. Finalmente, o percurso que leva a Gondramaz e ao Casal de S. Simão é para pessoas com algum treino. São 75,1 km em ambiente de montanha, numa jornada de um dia seguramente inesquecível.
aldeia, o trilho transporta-nos através de uma bela mancha de sobreiros até às margens da Ribeira de Alge, onde antigas azenhas e uma levada antecedem as imponentes Fragas de S. Simão, verdadeiro “canyon” modelado ao correr do tempo pela força das águas. A beleza do local e a limpidez das águas, parcialmente retidas por uma pequena represa artificial, convidam a um retemperador mergulho. Deixamo-nos ficar nas águas refrescantes, cada vez mais seguros de que o paraíso é aqui. O olhar estende-se pelas escarpas acima e fixa-se em três rastos na parede vertical, testemunhos da presença dos apaixonados da escalada, que aqui encontram um local de eleição para pôr em prática as suas qualidades e capacidades físicas e técnicas. 0 regresso faz-se por Além da Ribeira, onde as azenhas ainda trabalham na moagem dos cereais. 0 estreito trilho sobe agora ao longo da margem direita da Ribeira do Fato, permitindo ter uma visão privilegiada do Vale da Abundância. 0 alegre marulhar das águas da ribeira, a levada que segue paralela ao trilho e a vegetação onde predominam as Louráceas dão-nos por momentos a sensação de estarmos na ilha da Madeira.
espaço de sonho: o manso espelho de água estendendo-se no recorte de encostas pronunciadas e escarpas abruptas, a elegante ponte filipina que ao longo de séculos permitiu a ligação entre Coimbra e Castelo Branco, um guarda-rios que voa célere entre as duas margens ou os lagostins vermelhos do rio que aqui nos ameaçam com as robustas tenazes. Um pouco mais abaixo, na aldeia da Foz do Cobrão, fazem deles pitéu em Arroz Malandro mergulhados. Na hora de almoço, toalhas sobre as lages de uma praia fluvial apenas acessível de barco, petisquinhos vários na improvisada mesa, um pão de comer e chorar por mais, o requinte de uma sobremesa de requeijão e doce de abóbora e ainda uma improvável chávena de café, tornado mais delicioso ainda porquanto saboreado no mais belo dos recantos. 0 regresso faz-se de dúvidas. Será que um fim-de-semana destes aconteceu realmente? Mas também da certeza de cá voltarmos, com mais gosto e vontade ainda, para montes de novas descobertas.