Galiza - Num ambiente natural de bosque e rio, nasceu um hotel que sabe honrar os pergaminhos. Forte motivo para peregrinar até Santiago de Compostela
Passando Valença e apanhando Tui, mal se dá pela passagem fronteiriça, não fosse a placa europeísta a assinalar a entrada em Espanha. Aliás, na Galiza, como fazem questão de destrinçar miestros hermanos do Norte, que se sentem arredios em relação à restante Espanha. Vemos as paisagens, vemos os pueblos, vemos os montes e vales e a vegetação e não somos nós que descobrimos que o Norte de Portugal e a Galiza são um todo contínuo, mas sim algo que já vem de há muito tempo, numa secular tradição cultural que se reflecte nos hábitos, nos costumes e até no léxico – o galaico-português ainda subsiste e coexiste do lado de cá e do lado de lá da fronteira. São dois povos juntos – ou xuntos, como entenderem…
Vigo e Pontevedra, encaixadas no recorte das Rias Baixas, já ficaram para trás, resta flectir um pouco para o interior e rumar para o centro político, cultural e religioso da Galiza. Parece que o topo da catedral assoma ao longe e que o som dos gaiteiros da Placa do Obradoiro ecoa nos ouvidos, mas a ilusão é desvanecida quando se dá de chofre com uma casa granítica, de três alas unidas, rodeada pelo verde da vegetação e da relva e com um gracioso fontanário à frente. Paramos e lemos “A Quinta da Auga”. Entramos e o quentinho aconchegante envolve-nos – pelo crepitar da lareira e pelo calor dos sorrisos de boas-vindas.
O hotel abriu há poucos meses, mas a sua história remonta ao século XVIII, quando Dom Jacobo edificar. O desenrolar dos anos nunca deixaria antever o que é hoje. Sabe-se que em 1792 era uma fábrica de produção de papel, actividade que foi mantida até meados do século XIX, passando então a produzir panos de lã. Depois, tomou novo rumo, con-vertendo-se em fábrica de cerveja e de gelo sensivelmente até à década de 60 do século passado, após o que caiu em desuso e foi votado ao abandono. Estas peripécias e diferentes funções são claramente justificadas pela presença da água ah tão próxima, com o rio Sar a providenciar.
Em 2003, contudo, iniciou-se uma nova era, quando foi adquirido pelos actuais proprietários que, apesar da completa inexperiência na área da hotelaria, investiram na sua recuperação e fizeram que a fénix renascesse das cinzas. Vimos as fotografias da época da aquisição, e não deixámos de nos surpreender pelo aspecto deteriorado do edifício, pelas paredes esboroadas, pelos muros derrocados, pelos tectos caídos, pelas janelas esventradas e pelas ervas e vegetação que tudo invadiram.
Olhamos em redor e quase nem críamos no que os olhos viam, tais as diferenças. Como não podia deixar de ser, o nome Auga justifica perfeitamente a escolha: pelas águas do Sar que se ouvem distintamente, pela fonte no pátio de entrada, pelo tanque de onde brota água fresca e potável – e pela chuva miudinha que, no Inverno, faz questão de visitar insistentemente a Galiza.
Façamos, então, um périplo pel´A Quinta da Auga, acompanhados por Luisa Garcia Gil, proprietária e arquitecta do projecto. O edifício é constituído por três alas, sendo que as duas primeiras abrigam quase todos os quartos e outras dependências, ao passo que a terceira é constituída basicamente pelo spa. O átrio é uma espécie de antecâmara de diferentes espaços: a sala de estar, que acomoda diverso mobiliário disperso, entre mesas, mesinhas, sofás, cadeirões, maples, candelabros, estatuetas, livros, quadros e uma convidativa lareira que aquece o corpo e a alma naquelas taciturnas noites de Inverno; o restaurante Filigrana, com salas para fumadores e não fumadores, em que as tonalidades são dominadas pelo branco das toalhas e cadeiras e pelo lilás das paredes – o que confere grande elegância. Elegância, aliás, cumprida com distinção na apresentação dos pratos que, no entanto, assumem por contraste pelas porções pantagruélicas, com natural realce para a cozinha tradicional galega, rica em peixe e marisco – além do emblemático pulpo a galega – e nas carnes de porco, vitela e veado. Como re mate, à parte a carta de vinhos onde os Rioja assumem primazia, nada melhor que a doçaria, onde a filho caramelizada com arroz doce faz as honras da casa.
Praticamente ao lado, mas também com acesso pelo exterior, localiza-se a cafetaria Q CaféBar, para picar algo e beber café, chá ou diversos aperitivos, com os cartazes e as páginas de jornais e revistas antigas que forram as paredes a prenderem a atenção e a despertarem curiosidade.
Os pisos superiores são dedicados aos quartos. Cada um deles, incluindo os standard, disponibilizam diversas facilidades, mas o que realmente os distingue é o facto de todos eles serem diferentes – não há um único igual, apesar de haver coisas em comum: são bastante espaçosos, uma das paredes é forrada com papel com motivos de época, outra pintada com uma cor diferente mas harmoniosa e o resto respeita a traça original, com a pedra granítica à vista. A decoração é uma fusão entre o moderno e o antigo, com algumas peças a serem autênticas obras de arte. O acesso entre pisos pode ser feito por escadas ou elevadores, mas recomendamos estes últimos, não por comodidade, mas por poder apreciar a decoração, com reproduções das páginas de um livro que descrevia e ilustrava a actividade do edifício enquanto fábrica de papel.
As quatro suites merecem bem essa designação, pelo generoso espaço que disponibilizam -100 m2 – dividido por um salão, escritório, dormitório (com ampla cama de casal) e uma casa de banho com jacuzzi… e belas vistas para o rio Sar.
Dignos de registo são também os espaços para a realização de eventos e reuniões: o Salão do Rio (20 pessoas) e o Salão da Fonte (200 convivas), que desobedecem completamente aos cânones tradicionais – situam-se no piso térreo e o número de aberturas nas paredes de granito fazem que a luz natural entre de jorro, criando um ambiente de luminosidade que ainda é mais reforçado pela alvura da decoração e das paredes caiadas. A última ala é dedicada ao spa.
O resto é… paisagem – a quinta está inserida num terreno verdejante de relva, arvoredo e canaviais de bambu, que são devidamente alimentados pelas refrescantes e saltitantes águas do rio Sar.
A partir de Lisboa, há que tomar a Al no sentido norte até ao Porto, seguir ‘ pela A3 até Valença e, a partir daqui, continuar pela autopista do Atlântico passando por Vigo e Pontevedra seguindo o sentido Santiago de Compostela. Nas imediações da cidade, apanha-se a estrada AC-543, que liga Noia a Compostela, até encontrar as indicações de “A Quinta da Auga“, na urbanização Brandia, numa viagem com ò total de 540 quilómetros que dura aproximadamente seis horas. A partir do Porto, basta seguir o mesmo itinerário, embora a distância e o tempo de viagem seja menor: 240 quilómetros em cerca de duas e meia. GPS: 42° 12′ 1″ N + 4o 36′ 00″ E








