O trabalho dura o ano inteiro. Mas agora é tempo da colheita e da produção dos vinhos que tanto gostamos de saborear.
A paisagem do Douro, Património Mundial, transmite tranquilidade. O rio circula aos “ss” pelas encostas íngremes que exibem, orgulhosas, as suas vinhas. Esta é a altura em que há movimentação no terreno. Cerca de duas dezenas de trabalhadores iniciam bem cedo o trabalho e até ao lavar dos cestos, ou melhor, das caixas, é vindima. Termina na próxima semana a colheita das uvas na Quinta de São Luiz, terreno do grupo Sogevinus na freguesia de Tabuaço, são 125 hectares de área total, dos quais 90 são de vinha plantada. É lá que que se produzem os vinhos DOC (Denominação de Origem Controlada) e as castas dominantes são, entre outros, a Touriga Nacional e a Touriga Franca. Para juntar à produção local, juntam-se as uvas apanhadas noutras quintas. “Correspondem a 50 por cento da produção”, referiu Cátia Moura, responsável de Comunicação da Sogevinus.
Tal só é possível porque há todo um trabalho feito pelos enólogos ao longo do ano. “As uvas têm de estar iguais, com o mesmo nível de consistência. Existe um período de tratamento e controlo de qualidade que é feito pela equipa”, adiantou.
Tudo interfere…
Mesmo antes das vindimas, o tipo de vinho está à partida definido. E enquanto na Quinta de São Luiz é apenas produzido o vinho DOC, a quinta de Arnozelo produz vinhos do Porto. “Seleccionamos os vinhedos e temos em conta as várias características da vinha e do solo. Toda a matéria–prima é trabalhada no sentido de dar determinado produto (vinho do Porto ou DOC). O perfil do vinho está à partida definido”, explicou Francisco Gonçalves, director de enologia dos vinhos DOC, acrescentando: “Normalmente quero uvas e vinhos que tenham um certo tipo de acidez que encontro nas vinhas altas. O vinho do Porto requer vinhos com ‘pujança’ de aromas, que se encontram nas vinhas mais concentradas.” Tudo interfere: o tempo, as características do terreno e dos solos. “A localização é uma das características mais valiosas”, contou José Mauro, viticultor.
Vinhos de boa qualidade
Depois de todo o processo de produção dos vinhos, sejam eles DOC ou do Porto (ver caixa), há que saboreá–los. “Está a ser uma colheita muito boa em termos qualitativos. Quantitativamente, a produção vai decrescer perto de 15 por cento em relação ao ano passado”, disse Pedro Sá, responsável pela enologia dos vinhos do Porto.
“Lavados os cestos”, é preciso ter em conta o que pode ser melhorado e de que forma é que os vinhos se podem adaptar às alterações climáticas. “Antes as quatro estações estavam perfeitamente identificadas. Agora já não sabemos como funciona o clima. Estamos a estudar como se adaptam as uvas e as videiras a estas alterações”, sustentou Pedro Sá, sublinhando: “O vinho não vai deixar de ter aromas de frutas maduras, mas teremos eventualmente de fazer a vindima mais cedo. Teremos de mudar os processos, não o vinho.”


