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Luxuosas caminhadas, excelentes passeios de bicicleta e canoa podem fazer as delícias de quem viajar para a Irlanda do Norte. Mas não encontrámos só magníficos espaços naturais, mas também cidades cheias de controvérsia, histórica e política.

Irlanda 2

O conflito da Irlanda do Norte arrasta-se há centenas de anos, geração atrás de geração. Este diferendo entre irlandeses e ingleses, católicos e protestantes está já tão enraizado nas pessoas que suavizá-lo no espírito de cada um será sempre um processo inacabado. Mas, se, por um lado, em cada esquina e em cada conversa se sente esta divisão, por outro lado também nos apercebemos que há esperança no ar, que as pessoas estão cansadas do conflito e querem paz nas suas ruas e nas suas escolas. Como pode uma natureza tão harmoniosa ser um palco de tamanha discórdia humana? Aterrámos em Belfast, a capital, e partimos logo para o canto nordeste deste território, ainda pertencente à Grã-Bretanha. Começámos por fazer uma caminhada na Reserva Natural de Glenariff (Glenariff Forest Reserve). 0 centro de visitantes proporciona informação útil muito bem apresentada sobre a área e desta forma ajuda e cativa o turista a compreender a naturezaIrlanda 3 humana e paisagística que o envolve. 0 parque está localizado num imenso vale glaciar (em forma de U) e a diversidade de paisagens desde os campos abertos às densas florestas com rios e cascatas pelo meio tornam-no muito atraente. As florestas originais de carvalhos deram parcialmente lugar a outras espécies de árvores, principalmente vindas da América do Norte. Dos pontos mais altos avistámos a Escócia no outro lado do canal e imaginámos os antigos inimigos a atravessar o perigoso estreito em pequenos barcos a remos. Mais a norte, em Fair Head, fizemos uma caminhada por cima de falésias com mais de 100 metros de altura a precipitarem-se para dentro do Atlântico norte. Por toda a parte a paisagem é marcada pelas cores verdes dos campos conquistados desde os tempos dos celtas. A vegetação é rasteira e os arbustos são naturalmente adaptados às condições adversas de ventos fortes que assolam permanentemente esta costa. Nalguns locais de excepção, encontrámos árvores de porte considerável que foram plantadas para enriquecerem a paisagem, algumas delas caídas no chão pela acção do vento, com todas as raízes da sua base levantadas. Avistámos também um lago com uma pequena ilha no meio, reforçada com pedras que servia de refúgio na época do neolítico. Esta caminhada, tal como a de Glenariff, é de ida e volta. Começa perto de Ballycastle, em Murlough Bay onde, ainda em 1940, era extraído carvão utilizado para queimar giz, também obtido nas proximidades. Este, por sua vez, era utilizado como fertilizante ou para fazer tijolos.

Provavelmente, a mais espectacular caminhada foi na Causeway Coastal Way, um trilho pedestre de 53 km, bem identificado e junto à costa. Percorremos apenas uma parte, aproximadamente 20 km entre Carrick-a-Rede e a Causeway propriamente dita. Carrick é um pequeno ilhéu onde pescadores costumavam apanhar salmões vindos do outro lado do Atlântico para desovar nos rios Bann e Bush. Como nos explicou um guarda do serviço de parques, «os salmões atravessam o Atlântico norte e, ali ao fundo (apontou para o mar, a meio do canal entre a Irlanda e a Escócia), dividem-se em dois grupos: os salmões escoceses vão para oIrlanda 4 outro lado e os nossos vêm para cá». Estes ‘salmões’ levam muito a sério a sua nacionalidade! Uma pequena ponte suspensa liga o ilhéu a terra e, hoje em dia, é apenas uma atracção turística. Tivemos sorte com o dia pois esteve sol durante bastante tempo e a temperatura ideal para o nosso passeio. Este soberbo percurso pedestre alterna entre falésias, pequenas baías e praias desertas. Fez-nos lembrar um pouco a nossa costa alentejana e vicentina mas com o interior muito verdejante dos campos de pasto e da vegetação rasteira. 0 próprio trilho é de erva que, cortada, nos fazia sentir que passeávamos num imenso jardim. Ao longo do caminho, as vedações que delimitam os campos têm umas pequenas passagens permanentes com dois ou três degraus que possibilitam a passagem dos caminhantes mas não do gado. A existência generalizada destas passagens (em inglês “stile”) nos percursos pedestres deu-nos a entender que esta é uma actividade popular e reconhecida, quer pelas autoridades quer pelos proprietários dos terrenos. 0 final da nossa etapa correspondeu à Gianfs Causeway, um fenómeno único no mundo em que o arrefecimento da lava, em contacto com o mar, formou umas colunas de basalto com secção hexagonal e pentagonal quase perfeitas. A referência a um gigante faz parte da mitologia local: uma história dum gigante irlandês e dum gigante escocês…conforme a versão ganha um ou ganha o outro.

No que respeita às actividades de ar livre e exploração da natureza, o Turismo da Irlanda do Norte tem excelentes informações sobre o que fazer e onde fazer. Às vezes peca por excesso, nomeadamente em relação ao cicloturismo ou à canoagem, pois o visitante vê-se com dificuldades em concretizar os passeios sugeridos por falta de bicicletas ou canoas para alugar. Ainda na Causeway Costal Route sentimos muita dificuldade em encontrar alguém que nos alugasse duas bicicletas. Conseguimos finalmente em Bushmills num bed and breakfasf e desde esta vila, famosa pelo seu whisky, fomos até Portrush. Seguimos por uma das muitas estradas sugeridas e sinalizadas para andar de bicicleta. Nestas, o trânsito é normalmente escasso e os itinerários sinuosos, muito bonitos. A rota 93 levou-nos às ruínas de Dunluce, um impressionante castelo medieval construído sobre um rochedo. Este monumento, cuidadosamente preservado, foi o destaque do dia mas Irlanda 5 os 14 km em cada direcção desde Bushmills foram de tal maneira bonitos que, a cada curva, parávamos para apreciar a paisagem e registar o momento. Já mais a sul, perto de Enniskillen, tentámos alugar uma canoa. A perspectiva de navegar no Upper Lough Eme (lago Eme superior) era muito aliciante: um grande emaranhado de canais e pequenas ilhas rodeado de uma das maiores áreas de floresta natural da Irlanda do Norte. Só alugavam canoas no Centro Náutico, local que nós telefonámos do Centro de Turismo, mas que nos responderam que só alugariam se mostrássemos os nossos certificados de canoistas. Dissemos que éramos guias e que em Portugal não havia esse tipo de certificação dos praticantes, mas a resposta continuou a ser negativa. Tentámos colocar-nos na posição do centro náutico: “se em Portugal nos telefonassem do Turismo a dizer que queriam alugar umas canoas ou uns caiaques para irem para o mar, será que alugávamos?! O melhor é deslocarmo-nos lá ao centro, pode ser que através de um contacto pessoal reconheçam a nossa competência.” Assim o fizemos, conduzimos 25 km até ao centro náutico que era muito grande, a funcionária da recepção também nos pediu os nossos certificados de canoistas, mas concordou que falássemos com o director do centro. A resposta provavelmente teria sido a mesma, se não lhe tivesse acontecido um episódio semelhante e de repente a situação inverteu-se. «Eu também já tive o mesmo problema quando viajei. E aqui, de facto, a nossa lei não nos permite alugar a pessoas sem certificação. Mas além das canoas do centro, tenho material próprio que vos posso emprestar. 0 que é que preferem? Uma canoa para dois, um caiaque para dois, dois caiaques individuais?»

Emprestou-nos também um mapa dos canais, levou-nos no seu carro até um ponto de partida para fazermos um passeio de um dia e regressarmos a sua casa, à beira do Lago. Nem sequer nos pediu identificação ou qualquer caução. No final deste maravilhoso e inesperado passeio, seguiu-se um chá e dois dedos deIrlanda thumb Irlanda do Norte conversa com este novo amigo irlandês. A nossa viagem terminou novamente em Belfast. Embora não sejamos, de todo, fãs de futebol, assistimos num dos tradicionais pubs à final da Liga dos Campeões entre o Manchester United e o Barcelona. Também aqui (e principalmente aqui) se revelam as rivalidades históricas: pelo Manchester United estavam os “irlandeses do norte ou britânicos” e pelo Barcelona os simpatizantes dos que se querem juntar à República da Irlanda (ou Irlanda do Sul, como dizem os do norte). No dia seguinte, por sugestão de um habitante local, inscrevemo-nos num “politicai táxi tour”. De manhã, o guia-taxista veio ter connosco e disse: «Sou o John e vou guiar-vos durante o dia de hoje. Sou ex-membro do IRA, estive preso durante 14 meses…» Apresentações feitas, levou-nos ao bairro católico e mostrou-nos os monumentos em memória dos que morreram nos confrontos, levou-nos ao bairro protestante e às pinturas murais que, à semelhança dos de Londonderry, retratam a visão de cada uma das partes do conflito. Explicou-nos os programas conjuntos de católicos e protestantes que, hoje em dia, promovem nos jovens e crianças a paz neste território. Foi um excelente passeio guiado por alguém que, como muitos outros, quer a paz sem esquecer o passado e mostrou-nos mais uma perspectiva da realidade ainda bem viva que levará anos e gerações a transformar-se em paz verdadeira.

Fonte: SportLife

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    turismo em 15 de Janeiro de 2010
    categorias: Irlanda

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