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Entre muros e muralhas…

No Marvão, encontrámo-nos junto ao Convento da Nossa Senhora da Estrela. Estava um dia cinzento e com chuva mas a perspectiva de algumas abertas mantinha-nos animados. Começámos a descer por uma calçada de pedra em direcção a Abegoa. A calçada é íngreme e a superfície de pedra estava molhada obrigando-nos a descer com os cuidados redobrados. A pedra é uma presença constante nesta região e foi também aproveitada ao longo dos tempos para a construção de casas, muros e muralhas fazendo desta uma paisagem humana muito bonita e muito bem enquadrada no ambiente em redor. A partir de Abegoa, o percurso torna-se mais suave e os castanheiros e os carvalhos envolvem-nos ao longo do passeio. Nesta época, o chão fica forrado com as suas folhas castanhas fazendo-nos sentir que estamos já em pleno Inverno. Ao pé de Ramila de Baixo, na Relva da Moura, deixámos as nossas bicicletas para um pequeno desvio de 5 minutos a pé. O propósito foi chegar a um acolhedor recanto no meio de abundante vegetação junto às águas cristalinas do Rio Sever. Valeu a pena. Continuámos até Santo António das Areias, uma aldeia pitoresca e bem cuidada onde subsistem ainda algu­mas casas com traços senhoriais. No largo da igreja aproveitámos um momento sem chuva para o nosso já aguardado pic-nic.

A partir de Santo António das Areias começámos a pedalar por uma zona mais aberta onde as vistas são desafogadas. Ao longe conseguíamos ver a vila de Marvão, no alto do seu penhasco. O campo é ondulado e os caminhos e trilhos ladeados por intermináveis muros de pedra. Nos Açores, na ilha Terceira, diz-se que se construíram os muros para libertar a terra da pedra. Aqui parece o mesmo mas, ainda assim, sobra imensa. A agricultura parece impossível mas as casas em ruínas pelas quais vamos passando revelam que, antigamente, houve aqui intensa actividade. Algumas estão em locali­zações que nos fazem sonhar. Passámos por Cabeçudos, Vale da Escusa e pedalámos ao longo da ribeira do Cabril. Alguns caminhos são pou­co ou nada utilizados. Em algumas passagens tivemos que desmontar das nossas bicicletas e caminhar a pé. Faz parte da aventura e de explorar o desconhecido. Na Beirã encontrámos a passagem de nível encerrada. Aqui, o caminho-de-ferro continua activo e, expectantes, aguardámos a passagem do comboio. No meio do campo é sempre um momento engraçado, por nada em especial mas apenas pelo respeito que inspira e que faz todos parar à sua passagem. As horas (e o tempo de luz) aconselharam-nos a atalhar caminho. Olhámos para o mapa e decidimos arriscar por um caminho que vai a direito na direcção de Marvão. Passámos a Gamacha, a Castinceira, a Bica e o Souto Ferrador. Mais à frente, mesmo antes de chegar à Maceira passámos perto de um caminho de asfalto. Comentámos ser esta a última oportunidade para optarmos por um caminho civilizado. Mas, por aí, a distância era muito maior e a aventura continuava a apelar-nos. E, como muitas vezes acontece nestas situações, o caminho vai-se desvanecendo até acabar num campo ou numa casa desabitada. É normalmente quando já avançámos tanto que ninguém quer voltar para trás e.. .para a frente (para cima), fica uma encos­ta intransponível de bicicleta. Do lado de lá, a cerca de 500 metros vemos a estrada principal. Nestas alturas a determinação confunde-se com a teimosia (‘Tem que haver um trilho a fazer a ligação"). E voltámos a acabar com as bicicletas às costas. Mas não chovia e, quando parávamos para descansar e nos voltávamos para trás podíamos desfrutar uma vista magnífica e a sensação de um dia muito bem passado. Se decidires fazer esta rota recomendamos que, na parte final, faças o regresso por Maceira até à Fonte do Carvalho e depois pelo alcatrão até Marvão. Este percurso, no seu todo ou parcialmente, é também reco­mendado para fazer a pé.

Para mais informações escreve-nos para filipepalma@filipepalma.pt ou consulta o site www.filipepalma.com

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    categorias: Marvão

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