Serra da Lousã

serra da lousã

Deixamos para trás as preocupações de mais uma semana de trabalho e partimos em direcção às Aldeias do Xisto. Queríamos beber o ar puro da Serra, escutar o seu silêncio e penetrar no que eh tem de melhor. O nosso destino era a aldeia de Ferraria de S. João, no concelho de Penela.

Estrategicamente situada bem no coração de Portugal toda a vasta região do Pinhal Interior acaba por estar facilmente acessível a quem, vindo de Norte ou do Sul, a ela se dirige. Ao todo são 23 núcleos de elevado valor patrimonial, ambiental e social, criteriosamente recuperados e preservados, onde a cultura, a gastronomia, os produtos locais e o património construído se impõem e distinguem pela riqueza do ser e a força do seu carácter. Ali, no extremo sul da Serra da Lousã, onde o xisto e o quartzo se mesclam na mais bela das uniões, a aldeia expõe-se numa ruralidade ímpar de comunitarismo feita. A viagem decorreu de forma tranquila e o caloroso acolhimento à chegada prenuncia uma jornada inesquecível. A tarde vai caindo mansamente e não há tempo a perder. Partimos na direcção dos Penedos de Góis, bem lá no alto da Serra, roupa e calçado confortáveis e apenas uns binóculos como acessório imprescindível. Aquilo que está prometido é um espectáculo único, irrepetível.

A MAIS BELA DAS VISÕES

Setembro é o mês de acasalamento dos veados e é ao seu encontro que vamos. Nesta altura precisa do ano, é perfeitamente perceptível o bramido dos machos ecoando pelas inclinadas encostas da serra e perdendo-se na imensidão vales dos cavados. Apesar do seu número apreciável, são animais esquivos que pouco mais deixam que os trilhos a assinalar a sua passagem e os troncos descarnados de algumas árvores, onde os mais jovens se procuram livrar do tegumento que lhes recobre as hastes. Todavia, quanto a brama nem um som! Formas e sombras vão-se confundindo à medida que o sol cai no horizonte. Naquela hora mágica, onde tudo o que é realmente importante acontece, o regresso faz-se em silêncio, a frustração da gorada demanda a falar mais alto que tudo o quanto de belo se viu e sentiu. Ao longo da serra, as imponentes pás eólicas de torres mil permanecem inertes face à ausência de vento. Aldeias e vilas vão-se acendendo aqui e além em pequenos pontinhos luminosos. Eis quando… um… dois… três… quatro! São quatro os veados que, uma centena de metros à nossa frente, atravessam o estradão para logo se embrenharem de novo no mato. É tudo tão rápido que mal temos tempo para fixar na retina os seus acrobáticos saltos. E quando os pensávamos já perdidos, eis que surgem na crista do monte, silhuetas imóveis recortadas sobre o fundo violáceo dum poente que se despede. A harmonia daquele quadro arrasta-nos para outra dimensão, uma dimensão mais humana que nos reconcilia connosco próprios. Aos poucos, o casal com as suas duas crias afasta-se. Impondo-se no firmamento, o pequeno pontinho fulgurante de Júpiter precede um céu que, de tão estrelado, quase se alcança com a ponta dos nossos dedos.

NOVO DIA, NOVAS AVENTURAS

A manhã acorda e com ela uma proposta sobre rodas para um passeio de BTT. A primeira nota de admiração vai para o Centro de Ferraria de S. João que, juntamente com os da Lousã e de Gondramaz, constitui verdadeira estação de serviço para os praticantes desta tão exigente quão espectacular modalidade. No edifício de linhas modernas, o praticante encontra a mini-oficina e a bomba de ar automática, a par da máquina de lavar a bicicleta e balneários com água quente para um final de jornada em beleza. Os Centros são igualmente ponto de partida para uma enorme quantidade de percursos com diferentes níveis de dificuldade, ao encontro de gostos mais moderados ou mais radicais. Optámos pelo “Ferraria Loop”, 3.8 km para cerca de uma hora de puro prazer num passeio descontraído que nos proporciona uma panorâmica geral sobre a bonita aldeia. Os trilhos que levam ao Cercal, ao Favacal ou a Campelo apresentam já distâncias consideráveis, mas valem bem a pena pelas zonas de inegável beleza que atravessam, visitando o vale da Ribeira das Ferrarias, as Fragas da Lagoa ou o S. João do Deserto. Finalmente, o percurso que leva a Gondramaz e ao Casal de S. Simão é para pessoas com algum treino. São 75,1 km em ambiente de montanha, numa jornada de um dia seguramente inesquecível.

NAS FRAGAS DE S. SIMÃO

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A tarde encontra-nos no Casal de S. Simão, pequena aldeia encravada entre dois profundos vales, ainda há bem pouco tempo totalmente abandonada e agora revitalizada e cheia de projectos para o futuro. Daqui partimos à descoberta de uma das mais belas praias fluviais do Pinhal Interior para, com a ajuda do “lontrinhas”, desfrutar dos encantos das

Fragas de S. Simão. Para isso, nada melhor do que percorrer o PR1 – FVN, Caminho do Xisto de Casal de S. Simão que nos leva directamente ao idílico local. Saindo da aldeia, o trilho transporta-nos através de uma bela mancha de sobreiros até às margens da Ribeira de Alge, onde antigas azenhas e uma levada antecedem as imponentes Fragas de S. Simão, verdadeiro “canyon” modelado ao correr do tempo pela força das águas. A beleza do local e a limpidez das águas, parcialmente retidas por uma pequena represa artificial, convidam a um retemperador mergulho. Deixamo-nos ficar nas águas refrescantes, cada vez mais seguros de que o paraíso é aqui. O olhar estende-se pelas escarpas acima e fixa-se em três rastos na parede vertical, testemunhos da presença dos apaixonados da escalada, que aqui encontram um local de eleição para pôr em prática as suas qualidades e capacidades físicas e técnicas. 0 regresso faz-se por Além da Ribeira, onde as azenhas ainda trabalham na moagem dos cereais. 0 estreito trilho sobe agora ao longo da margem direita da Ribeira do Fato, permitindo ter uma visão privilegiada do Vale da Abundância. 0 alegre marulhar das águas da ribeira, a levada que segue paralela ao trilho e a vegetação onde predominam as Louráceas dão-nos por momentos a sensação de estarmos na ilha da Madeira.

DE KAYAK AO CORRER DO ZÊZERE

O fim-de-semana está a terminar mas ainda temos pela frente uma grande aventura. Desta feita, ao longo do dia, deslizaremos mansamente sobre as águas do Zêzere, na albufeira da Barragem da Bouçã. Os vistosos e seguros kayaks de travessia são o nosso meio de transporte. Destreza e alguma força de braços é tudo quanto se necessita, que o resto vem por acréscimo. E o resto é tão somente a tranquilidade absoluta de um espaço de sonho: o manso espelho de água estendendo-se no recorte de encostas pronunciadas e escarpas abruptas, a elegante ponte filipina que ao longo de séculos permitiu a ligação entre Coimbra e Castelo Branco, um guarda-rios que voa célere entre as duas margens ou os lagostins vermelhos do rio que aqui nos ameaçam com as robustas tenazes. Um pouco mais abaixo, na aldeia da Foz do Cobrão, fazem deles pitéu em Arroz Malandro mergulhados. Na hora de almoço, toalhas sobre as lages de uma praia fluvial apenas acessível de barco, petisquinhos vários na improvisada mesa, um pão de comer e chorar por mais, o requinte de uma sobremesa de requeijão e doce de abóbora e ainda uma improvável chávena de café, tornado mais delicioso ainda porquanto saboreado no mais belo dos recantos. 0 regresso faz-se de dúvidas. Será que um fim-de-semana destes aconteceu realmente? Mas também da certeza de cá voltarmos, com mais gosto e vontade ainda, para montes de novas descobertas.

ACESSIBILIDADE TOTAL

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O Caminho do Xisto Acessível de Gondramaz foi projectado tendo em conta a máxima acessibilidade, permitindo a sua utilização por pessoas portadoras de incapacidade. Ao todo são 450 metros de um percurso equipado com pavimento sensorial, permitindo aos invisuais uma orientação independente através do contraste de texturas. A cada alteração de textura do pavimento corresponde um particular ponto de observação onde a pessoa pode perceber o espaço envolvente e ouvir a sua descrição, das múltiplas esculturas nas paredes das casas às tonalidades cor de fogo das folhas dos castanheiros. Tudo isto através de áudio-guias cedidos gratuitamente em vários pontos. No caminho, junto à Capela de Nossa Senhora das Candeias, existe ainda um W.C. devidamente adaptado a indivíduos com incapacidade motora. Gondramaz – Miranda do Corvo. Distância – 450 metros (900 m ida e volta); tempo de duração aprox. – 15 minutos (30 min. ida e volta); desnível – 40 m. Áudio-guias disponíveis no Posto de Turismo de Miranda do Corvo (tel. 239 530 316), Quinta da Paiva (tel. 239 530 150) e Restaurante Pátio do Xisto (tel. 239 538 012).

 

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